Sempre combinámos o café à mesma hora e no mesmo sítio. Na verdade, tu nunca bebeste o bendito café. Pedias sempre o uísque que, desde que me lembro, te era servido num copo largo de vidro antigo e cheio de marcas de uso. Eu contemplava continuamente o teu ritmo. Ao início só molhavas os lábios, ficavas com o copo na mão à espera que te respondesse ou que continuasse com mais um dos meus diálogos infindáveis. Depois suplicavas por silêncio com o olhar. Concentravas-te na rádio, na voz cansada do locutor e começavas a tragar cada vez mais depressa. Acabavas com um pousar barulhento do copo na mesa e recomeçavas a conversa. Muitas vezes comentavas o uísque, dizias sempre que nunca te serviam do mesmo, que o da semana passada era melhor ou que o que acabavas de beber era excepcional. Outras começavas a questionar-te o porquê de eu não gostar, que era uma bebida quente e que enchia o peito, que era preciso interesse, aprender a gostar, que eu nunca me tinha dado ao trabalho de o fazer e só perdia com isso. De facto, o uísque sabia-me mal. Dava um gole muito raramente misturado com o café e transformava a minha face numa careta de náusea. Tu rias-te constantemente com as minhas expressões, dizias que para tudo havia uma expressão minha e todas elas eram diferentes. Eu ria-me mais quando o álcool te começava a subir à cabeça, ficavas com um discurso descontrolado, davas gargalhadas de meia hora e fazias demasiados gestos com as mãos. Depois, depois de nos rirmos um do outro e de falarmos até nem mais, dávamos os braços e íamos para um sítio qualquer. Sentávamo-nos num banco velho de jardim e ficávamos ali. Sem conversas, sem risadas, sem horas. |
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Comments
Gostei da forma como descreves-te o momento...
Foi bonito. (?)
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Ancient Ways, Modern Days
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He raged at the world, at his family, at his life. But mostly he just raged.
É-me muito palpável, por experiências semelhantes pode dizer-se.
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